Você se dedicou, estudou, planejou, entregou. Construiu uma trajetória admirável. Tem clareza sobre o que valoriza, conhece suas fortalezas, sabe onde quer chegar. Mas, mesmo com essa bagagem, algo começa a incomodar.
A promoção não vem. Aquela vaga promissora não se concretiza. O novo projeto não gera o entusiasmo esperado. E a pergunta silenciosa começa a ecoar: “Ainda faz sentido continuar nesse caminho?”
Esse é o tipo de dilema que vou chamar de “lado B” da trajetória profissional, aquele lugar onde moram as pausas, as dúvidas e as contradições internas que não cabem nos planejamentos lineares.
Nos modelos tradicionais de gestão de carreira, existe uma crença implícita de que basta traçar um plano claro e segui-lo com disciplina para que o sucesso aconteça. No entanto, como apontam diversos estudos em psicologia organizacional e orientação de carreira, a carreira é uma construção subjetiva, contextualizada e dinâmica e, portanto, suscetível a mudanças internas e externas que desafiam qualquer planejamento rígido.
O professor Joel Dutra, da USP, propõe em seus trabalhos a ideia da carreira como processo de construção de sentido: mais do que cargos ou conquistas, a carreira é uma narrativa que a pessoa constrói ao longo do tempo, com base na interação entre quem ela é, os contextos que habita e o que busca realizar no mundo.
Nesse processo, é natural que surjam momentos de desalinhamento, especialmente em fases de amadurecimento profissional, quando o indivíduo já conquistou marcos importantes, mas começa a questionar se aquilo tudo ainda representa realização ou apenas continuidade.
É comum que, diante dessas dúvidas, surja um sentimento de culpa ou inadequação. Afinal, “tantas pessoas gostariam de estar no seu lugar”… Então, por que essa sensação de vazio ou desencaixe?
O que se vê na prática é que a dúvida não é um problema em si, mas sim um convite à escuta mais honesta da própria trajetória. Muitas vezes, ela é o primeiro indício de que a pessoa está pronta para redefinir o que entende por sucesso.
Não se trata de jogar fora tudo o que foi construído até aqui, mas de reconhecer que talvez seja hora de recalibrar a rota, atualizar as prioridades e revisitar o significado do que se faz.
É nesse ponto que a gestão de carreira precisa ser compreendida para além da lógica de metas e desempenho. Ela passa a incluir também a gestão do próprio desejo, da identidade profissional em constante construção e das emoções que emergem nas transições.
Algumas perguntas podem ajudar nesse processo de reflexão:
Essas perguntas não têm respostas prontas, e nem sempre exigem mudanças drásticas. Às vezes, o ajuste é sutil: uma nova forma de se posicionar, uma negociação de escopo, um redirecionamento de foco. Outras vezes, sim, será preciso reconsiderar o rumo mais profundamente.
Gerir a própria carreira, especialmente em níveis mais maduros de desenvolvimento, não é mais sobre “chegar lá”. É sobre estar alinhado com o que importa, mesmo que isso signifique recomeçar, reescrever, recusar certas rotas.
O “lado B” da carreira não é um desvio. É parte legítima do caminho. É nele que nascem as transformações mais significativas, aquelas que não cabem nos gráficos de desempenho, mas que mudam a forma como a pessoa se sente diante do que faz.
Talvez seja nesse território incômodo, mas fértil, que a sua próxima versão profissional esteja esperando por você.

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